
Durante um discurso em jantarada politiqueira do CDS/PP, algures em Lisboa em pleno circo das campanhas pelo poder, Paulo Portas, líder do referido partido, desembainhou da demonologia cristã sustentadora dos seus ideários e criou um demónio político fumegante com a fantasmagoria típica, pós de futurologia divina e a consequente cura por exorcismo com muito enxofre à mistura, no caso concreto, o exorcismo era uma cruz num boletim de voto, não vá o homem morrer à sede de poder.
Já cansavam os demónios dos “delinquentes“, dos “meliantes“, e claro está, dos que vivem abastadamente do “rendimento mínimo” em regime de preguiça eterna, e os novos? O espantalho comunista oriundo do Leste que se enquadra em toda e qualquer coisa que se defina como esquerda, a futurologia do irónico pergunta-me se os canhotos perderão novamente os seus direitos a ser canhotos, talvez inclusive uma das muitas artimanhas dos demónios pessoais de Paulo Portas. E o ateísmo? Ao que se afigurou, a cereja em cima do bolo da demagogia saloia, politicamente correcta dita popular, e para ouvir as homilias do CDS/PP o intelecto deve ser guardado num saco roto.
E as palavras proferidas foram as seguintes: “Quanto ao PCP, era nos países de Leste, caiu o muro e ninguém que viveu sob a ditadura quis voltar a viver lá. Quanto aos outros, houve um país – a Albânia – era o mais miserável da Europa, espalharam a miséria. Até um museu do ateísmo tinham. Todas as pessoas que podiam fugiam, quando fugiam eram mortas.“.
Penso que na mentalidade salazarista do museólogo do submarinismo, o ateísmo é o culminar do miserabilismo humano, o que de facto revela uma total coerência com os prosélitos dos seus líderes religiosos, como será óbvio, pela tradicional mimética social oriunda dos sistemas hierárquicos abordados.
Considerando a pirâmide católica a acusação parte de Ratzinger, líder da Igreja Católica Apostólica Romana, aquando da Encíclica Spe Salvi lê-se o seguinte, “O ateísmo dos séculos XIX e XX é, de acordo com as suas raízes e finalidade, um moralismo: um protesto contra as injustiças do mundo e da história universal. (…) Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade intrínseca desta pretensão.“. Resumindo, a típica mitologia ateísta inventada no Vaticano, com Marx, Lenine e Estaline como espécie de santíssima trindade a quem se oferecem crianças para comer num ritual de idolatria com foices e martelos, e parvoíces decorrentes de estúpidos pressupostos similares.
Seguindo a hierarquia podemos chegar, por exemplo, às palavras de José Policarpo, membro elevado da piramide católica em Portugal, emitidas durante o comício natalício da Igreja Católica Apostólica Romana em 2007, de notar serem proferidas cerca de um mês após a Encíclica atrás referida, ou seja, a típica mimética, “todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade.“.
Contextualizado as semânticas da expressão “Até um museu do ateísmo tinham.” de Paulo Portas, parece-me nítida a carga negativa, fantasmagórica, descriminatória e inquisitorial com que está imbuída tal afirmação, pois aquilo que poderia afigurar-se como uma mera curiosidade, uma actividade museológica invulgar, a acrescentar aos museus de selos, de ceras, de moedas, de langerie porque não, afinal é uma aberta atitude separatista e uma macabra associação entre assassinatos e ateísmo, aparecendo o referido museu como o ex libris da criminalidade.
Na minha opinião, Paulo Portas excedeu todos os limites possíveis e imaginários do racismo social, as suas lunáticas politiquices incitam ao ódio e à marginalização, à ruptura com toda e qualquer aragem de ar fresco laico que se possa respirar, e comete o erro grave de sobrepor as suas opções morais religiosas totalitárias às legislações democráticas, o pecado sobreposto ao crime, e ainda mais absurdo, o facto de tais laivos passarem lestos nos ouvidos surdos democráticos, e quem assegura os meus direitos individuais? Eu próprio. E assim excessivos indivíduos. Saliento ainda o curioso facto de a expressão “Até um museu do ateísmo tinham.” ter sido eclipsada na notícia feita pela RTP.
Após análises e dissertações, questionamentos filosóficos baseados em estupidologia direitista e selvajaria capitalista, concluo o seguinte, Paulo Portas é um caso perdido da imbecilidade aguda.
Linques úteis ou inúteis:
Público: Portas endurece discurso contra extrema-esquerda
SIC: Para Portas a esquerda é o alvo mais apetecível
Carta Encíclica Spe Salvi
RTP: O CDS-PP endureceu o discurso contra o Bloco de Esquerda na recta final da campanha (com eclipse do museu do ateísmo)
Diário de Notícias: Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus